segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Rock and Roll esta morto?


Ao girar o dial do rádio enquanto dirijo, o que ouço?
Pagode, axé music, funk, sertanejo, musicas de artistas teen, musicas com 20 ou 30 anos de gravação e tudo isso intercalado entre cultos e exorcismos de demônios por pastores evangélicos que pedem um dízimo extra. Mas o rock quase não aparece.
Aqui em São Paulo, depois do fim da Oi Fm e da Mitsubishi Fm, sobrou apenas a 102,1 (Kiss FM) que nunca toca nada de novo, apenas os clássicos de 20, 30 ou 40 anos atrás. Será que não surgiu nada de novo?
Ainda sobre rádios, com a Uol FM 89,1 agora temos uma rádio que toca Rock atual e novidades, mas é apenas uma entre tantas no dial. A Uol FM poderia até ser uma prova de que o Rock sobrevive, mas quando observo por outros aspectos, o cenário ainda parece crítico.
São Paulo ainda aparece como um grande palco para bandas virem fazer shows, e nos últimos anos tivemos grandes apresentações por aqui, lotando estádios e casas de shows - Aerosmith, Rush, Kiss, Roger Walters, AC/DC, Metallica, Pearl Jam, além de festivais como o Lollapalooza e o SWU.
Mas mesmo assim, algo ainda incomoda. Todas as bandas que citei acima, que lotaram estadios tem mais de 20 anos de carreira.
Sei que muita gente poderá me dizer que nos festivais tiveram bandas novas e de peso, como Kings of Leon ou Arctic Monkeys, mas essas bandas sozinhas não encheriam um festival sem um Rage Against Machine ou um Foo Fighters na mesma noite.
Portanto, desde o movimento grunge, do inicio dos anos 90, não tivemos nenhum outro movimento expressivo ou de peso, não tivemos nada que fosse uma reinvenção do Rock. Aliás, que me perdoem os fãs do Linkin Park, mas o New Metal foi um fiasco (assim como o movimento Emocore do início deste século).
Alguns fatores podem ter sido responsáveis por este momento delicado que passa o Rock and Roll - A crise da indústria fonográfica.

A crise da indústria fonográfica começa lá no passado, ainda na década de 70, quando surgiram as primeiras fitas cassetes. Tudo bem que isso pouco ou nada afetou a indústria fonográfica, pois muita gente comprava os discos para gravar e depois ouvir no carro, ou simplesmente para fazer uma boa coletânea. O golpe mesmo veio com a invenção dos gravadores de CD's no fim dos anos 90. Embora já existisse pirataria de vinis, a instauração da pirataria veio com o gravador de CD's.
Mas ainda não foi o golpe de misericórdia. As gravadoras continuavam ditando quem deveria e quem não deveria fazer sucesso. Era o famoso jabá, as rádios ganhavam para tocar artista x, y ou z nas suas programações, e muita gente ainda comprava CD's, nem que fosse para gravar depois sua coletânea preferida. 
Lembra, 15 anos atrás como era fácil encontrar uma loja de discos (vinis ou cd's) em um shopping? E existiam até aquelas que eram especializadas em Rock. Hoje para comprar um CD, vá a uma loja de departamentos ou uma livraria, e estará lá o espaço em um canto modesto, com uma coleção modesta de títulos.
Mas, com o advento e popularização da internet... aí sim, a industria fonográfica teve o tiro de misericórdia. Porque afinal, alguém teria que ouvir algo do rádio, ou fazer coletâneas dos CD's antigos se poderia baixar tudo gratuitamente da internet? Diversos programas para download de música popularizaram na rede no inicio do século, e um cenário de muita novidade surgiu na tela. Afinal, ali era fácil encontrar coisas que você nem imaginava que existia, como por exemplo seu artista preferido tocando com um cara incrível que você nunca tinha ouvido falar. Como alguém poderia saber que Johnny Depp tocou guitarra com The Black Keys se não fosse o Youtube? Ou como saber do novo trabalho do Rush, Garbage ou dos Stones, se não fosse a internet? Como saber que tem uma banda australiana (Airbourne) fazendo um som super legal? Ou que Wolfmother também existe? Como saber o lado negro do Rock que toca nos países escandinavos?
A industria fonográfica não toca isso. Não tem o mínimo de interesse em mostrar isso.
Afinal, Justin Bieber, Selena Gomez, Taylor Swift, One Direction, Rihanna, Maron 5 garantem hits chicletes que adolescentes pagam para ter em seus iPhones.
O Rock não morreu. Mas perdeu share de mercado.
Outros gêneros surgiram e tornaram-se populares - funk, hip hop, pop teen, sertanejo e forró universitário, musica latina, caribenha, salsa e etc. A internet democratizou a sonoridade.
Significa isso que não surgiu nada de novo no rock - não, isso é uma mentira. Surgiu sim, depois do grunge dos anos 90, o Rock continua fundindo com outros estilos e dando peso a diversos outros estilos. Aqui no Brasil temos o samba rock (Virguloídes, por exemplo) e o Virna Lisi que fundiu nos anos 90 o Rock com o Baião e Chico Science que criou o Maracatu Atômico numa brilhante fusão. E essa tendência segue ativa pelo mundo afora. As garotas russa do Pussy Riot continuam mostrando que o punk rock continua destilando rebeldia. Embora seja difícil de engolir, o Rock misturado com a depressão e os dilemas adolescentes deu origem ao Emocore (tomara que isso passe logo).
Gene Simons e demais membros do Kiss, recentemente disseram que o rock perdeu sua força, e que não existe nenhuma grande banda capaz de entregar um bom show para o publico, ainda segundo eles, quem entrega um grande show hoje é a Lady Gaga. Realmente, não surgiu nenhuma banda nova, nos últimos 10 anos que fosse capaz de encher um estádio com 60 ou 80 mil pessoas. Mas surgiu a democratização dos direitos. Hoje, qualquer um pode gravar um vídeo, colocar no youtube e se cair nas graças do povo, o marketing viral poderá transformar a pessoa em celebridade em pouquíssimo tempo.
Esta aí o movimento indie, sempre crescendo e sempre trazendo novidades.
O Rock não morreu. Criou independência da indústria fonográfica e esta se readaptando aos novos dias. Se surgirá um novo astro capaz de lotar estádios, ou se essa proeza morrerá como Mick Jagger, não sei. Talvez o futuro do Rock seja - apresentar novas bandas pela internet e shows em festivais.
O Rock continuará reinventando. 
A indústria fonográfica é que esta em sérios apuros e precisa ser reinventada. A música não precisa mais estar em vinil ou CD, hoje a música vem em bits e bytes pela internet, é armazenada em memória ou acessada via web, os artistas descobriram que podem chegar diretamente aos seus ouvintes sem passar pelas gravadoras. Hoje o sucesso vem por mérito e não por divulgação das gravadoras. Vide o recente caso do sul coreano Psy. Gangnan Style tornou um hit, não sei quantos discos Psy vendeu na Corea ou na Asia, mas sua explosão mundial não teve dependência nenhuma das gravadoras.
Novos tempos, novas tendências... e quem não se adaptar rápido poderá estar fora muito em breve.



Um comentário:

  1. E o que deve ter de grandes músicos frustrados por só conseguir fazer $ com música/gênero que eles próprios detestam...

    Excelente texto!

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